quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Validade mofada



O velho engole compulsivamente sua saliva. Os olhos fitam um ziguezague sem penar na modéstia de um anjo arlequim. Foste o tempo em que amou, agora a tarde é mais uma janela aberta para a momentânea saudade. As mãos tremulam, uma inquietação adormecida perturba o degenerado homem habitual da suas tardes em cadeira de balanço.
O jornal solta tinta, vogais soltas misturam-se com as digitais mal resolvidas das lembranças impostas por estes tantos e poucos anos de vida.
A casa de madeira fina e velha chegava a dobrar algumas quinas de tão deteriorada pelos cupins armazenados. Os quadros da família voltava-se para o contrário da sala de estar, o balanço do chão afastava cada passo mais forte um pouco mais daquilo que eternizado, mofado e cheio de pó, era sua presente lembrança mais evidente.
Acende o décimo primeiro cigarro do dia, faz um esforço autêntico para tragar o mínimo possível. A tosse exala uma ronquidão surreal, os brônquios interrompidos, a respiração comprometida, uma sinfonia de tosses e mais tosses desimpedidas de aparecer e reaparecer cada vez mais seguidas. O bolso da molestada camisa de algodão vermelha ainda guarda mais uns quatro cigarros, sobras da noite passada. Seus olhos continuam a fitar, não mais o arlequim, muito menos o querubim, mas sim, a disposição dos cigarros em movimento a cada propagação da tosse combalida do peito. Escorrega na face suas mãos tremulas do tempo, dedos indicadores e médios contornam o rosto, desenham círculos imaginário de passados impiedosos com marcas.

As pequenas lembranças não têm força para serem esquecidas, o mundo passou em sua frente com a velocidade dos vídeos - tapes, e os momentos recordados em tempos seculares.
Sentado em sua cadeira de balanço feita com balaio tingido de verde, o velho retoma a linha de pensamento da vida. Exonera a idéia da tosse imperfeita, reconstrói imagens detalhadas da sobriedade com intuitos de saudade.
Morria e vivia a cada amanhecer. Indiferente ficava quando não acordava com o canto pastoril dos pássaros bucólicos, algazarras dos gritos de meninos e passos vespertinos, dos corpos expostos ao sol.

A erva-cidreira exalava o aroma do chá que ajuda a zelar seu sono em conflito com a rouquidão do peito.O velho cuspe, tosse, recorre a sua alma, mas não sabe ao certo a razão de tudo terminar assim. Defenestra o passado, revoga o futuro, e não consegue sentir o presente.
Alguns sussurros de saudades e ausências que não entendia são a parte mais confidencial de um homem em conflito. Assoviar não consegue mais

2 comentários:

Anônimo disse...

belo exemplo de que a vida deve ser merecidamente vivida.

conto belo.
parabéns.

Anônimo disse...

variar ,muito bomesse texto ,amigo bruno
andré