sexta-feira, 27 de julho de 2012

Cabeça de peixe


O som dos peixes descamados argumentava com a velocidade do seu querer. A média de consumidores era altamente pela época das férias escolares, justamente a que conheceu do outro lado do balcão. As filhas, uma de cada pai, formando o trio feminino em uma casa construída com tantos trabalhos extras nos domingos – desconfiavam da verdade. Descamar peixes é um absurdo, diante de tanta gente que nem obrigado fala.
A mais velha casou-se e foi morar em uma cidade distante do mar, da maresia apenas as lembranças da infância a as visitas até a mãe. Uma delas, esqueceu o seu nome em razão da loucura promovida pelo então seu esposo – insistente de tarefas e desacordos familiares. Eu chego cedo, ajudo na pesagem dos peixes. Quando posso, nego a identidade diante de tantos homens em alto mar - certa vez precisei usar a faca para condizer com o meu nome.
Hoje estou de folga e posso censurar todos os clientes de barriga cheia e acostumados com o litoral apenas nos seus descansos. Alguns acreditam, cabeça de peixe frita é uma delícia. 

domingo, 1 de julho de 2012

A felicidade não é um dever, mas falta do que fazer

Perdeu-se no que iria dizer. Não é tarde. Cedo os carros passavam. A cidade não dormia. Sirenes e gritos da porta da igreja. Dois pedintes, exigindo complemento para a passagem do ônibus. Surdos não estávamos, mas carentes de opinião, iguais aos ratos escondidos nas tampas dos bueiros sem ter o que falar quando percebem um belo par de pernas feminino. 
Televisão, notícias do final de semana. Tudo culpa do tempo, os mesmos horários, a mesma voz dos apresentadores, até os gols da rodada, previsibilidade de uma época igual, mesmo com insistências diferentes. 
O silêncio da rua. Nenhum bêbado para esbravejar contra o começo da semana, pouco do inverno, que tantas vezes maltrata - agora descansa, rotina não respeitada pelos populares. "O poema não diz, o que a coisa é, mas diz outra coisa, que a coisa quer ser" - o conto não é feliz, mas falta do que fazer. 

"Muitas Vozes", Ferreira Gullar.