quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Fuga do silêncio

Entre.
-Com licença.
-Toda.
Gostaria de conversar sobre causos que insistem em atormentar meu corpo. Fale, não sinta-se preso ao afago das palavras. O senhor sabe muito bem as razões que trazem as pessoas a virem até aqui. Olha, muitas vezes não sei do que trata-se, mas no decorrer das conversas, sempre apresento inferências.
Outro dia peguei-me preocupado com os cabelos brancos nascentes em minha costeleta. Isso sem contar os minutos recluso em frente ao espelho para diagnosticar quantos fios mais claros tenho em minha cabeleira. Sabe fico sem jeito em olhar o espelho e sempre ver anúncios que estou deteriorando com o tempo. O grande motivo que trouxe-me aqui é simples e jocoso, fica a critério do doutor escolher.Ontem percebi que uma amiga perdeu seu olhar em minhas entranhas capilares, aquela visão foi tão escandalosa e denunciante. Meu corpo todo foi alvejado com tamanho olhar pretensioso, aqueles segundos foram mais arrastados que os ponteiros do relógio da Guerra do Iraque.Então doutor, o que você pode-me dizer? O seu caso é algo comum na nossa sociedade, vejamos quantos homens não ficam desesperados com qualquer sintoma que entregue a idade. Não preocupe-se, as estrelas também envelhecem, as páginas amarelam e seu futuro muitas vezes envelhece com lembranças do passado. Mas, o doutor acha normal meus pensamentos?Sim, alias normalíssimo. Doutor, doutor.
A esposa de um amigo acha piegas homens com cabelos brancos, para agravar a cena, ainda disse que pior são os homens que não fazem nada para combater ou cabelo branco. A mistura de lembranças levam-me a minha infância, quando assistia os velhos generais com seus cabelos brancos cobertos por suas boinas verdes discursarem por longas horas, sempre cheios de razão, como o mundão fosse seu próprio salão de festas. Certa vez lembro do titio Lopes, chegou em casa calado, tia Maria perguntou, o que aconteceu Lopes. Sem forçar muito a língua soltou um fúnebre “O golpe de 64 começou.”. Depois foi tudo um silêncio perdurado por 21 felizes anos novos. Sabe doutor, nem queria vir até seu consultório, porém minhas incertezas de pensar e interagir como sou obrigaram minhas pernas serem contraria ao pensamento. E olha, nunca prometi muita coisa, mas uma das minhas promessas foi em não entrar nunca em um consultório psiquiátrico. Sempre considerei piegas relatar problemas para um outro alguém que mal conhece-me, com todo respeito a sua pessoa e formação doutor.
Não dormi por várias noites, ensaiei a visita ao consultório, cheguei a fazer um estudo do local para não ocorrer no problema de encontrar algum conhecido, nunca sabe-se, vai que aparece a esposa do amigo e solta mais alguma frase profética.
E a sua esposa? Minha esposa acha bonito homem grisalho, nunca disse nada sobre os fios brancos da minha costeleta, mas sempre faz comentários sobre atores hollydianos que tem cabelos grisalhos. Então, senhor .. Não seria mais fácil interessante apropriar-se dos comentários da sua esposa e esquecer uma opinião alheia. Sabe doutor, na teoria seria mais cômodo, porém a pratica exige parecer para terceiros ser uma pessoa diferente dos comentários.
Mas, assim você vai acabar maltratando a si mesmo. Não percebes que nunca conseguirá ser os dois lados da moeda. Entenda, seu problema é querer corresponder o capricho de um comentário, ainda mais de uma pessoa que não tem vínculo algum com o senhor. Os cabelos brancos são amostras do tempo implacável, ou senhor acha que nesse tempo de consulta o tempo parou? As crianças da roda cutia, as meninas do amarelinha já ultrapassaram a fase infantil, por mais que sejam crianças, estão minutos menos crianças.
Aqueles restos de cabelos espalhados ao chão do salão, tinha vários fios brancos e eu brincava de coloca-los sobre minha cabeça quando criança, enquanto esperava para cortar meu cabelo. Menino que gosta de brincar com fios de cabelo vamos lavar o cabelo e depois corta-lo. Lá, lá, ri, lá, lá, assoviando em notas sustenidas o barbeiro sempre contava quantos fios brancos escorriam pela pia. Uma contagem significativa sempre resultava. Deve ser uma espécie de provação da vida em fazer acontecer às vontades. Na última vez que cortei o cabelo, seu José o barbeiro contou-me sobre sua preocupação com o aumento da força militar nas ruas da cidade. Uma preocupação que maculava seu tom afinado de assovio e cantoria.
Manhã de sol, céu aberto e sem nuvens. O rádio tocava uma canção bonita com versos cheios de metáforas, pela janela aberta, percebia os pássaros cantores e alguns casais de enamorados. Sem fazer propagando alguma a rádio interrompeu a música e divulgou a manchete. “Uma explosão acabou com a barbearia do Seu José” mais informações na seqüência da programação.O silêncio colocou-se à frente das palavras.
Próximo.

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