sábado, 14 de fevereiro de 2009

Íntimo de si



Amo escrever para você, mesmo sabendo que você não vai ler. O café está pronto, pontualmente às 06h18min.

- Não, não se preocupe, eu ainda deixo o seu jornal ao lado da sua xícara. Sabe que ontem eu pensei em você muito, daquela vez que nós inventamos descobrir o quanto tinha de água na pia do banheiro.

- Tudo bem, não quer falar disso, eu não vou insistir.

- O que? - não precisa ficar ofendido, aquele dia a escova de dente foi usada de maneira inesperada. Não precisa fechar a cara e justificar isso a sua postura de turrão.

- Sei que você não vai ler esta carta mesmo. Acho que vou parar por aqui.

- Não te entendo, não vai ler e acha que a carta é muito curta.




O ponto final é ali. Mas o silêncio é sempre aqui.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Café gelado



Você deveria se comportar como um homem de mais de 50 anos – foi a pedinte frase que escutei sentado no café naquela tarde. A primeira impressão é que ela tinha invadido as minhas idéias além do que eu estava acostumado. O senhor costuma sempre vir até aqui? Não - rispidamente respondi. Acendi um cigarro, encarei seus olhos – ela balançou a cabeça e virou de costas para a mesa que eu estava.
Sozinho em meu silêncio primário eu fingia saber viver. Não tenho muitas palavras, sou um homem de poucas horas, quase nenhuma vontade, meu bel prazer está em fumar meu cigarro e não pensar no amanhã. As minhas maiores vontades eu carrego em meus dedos ásperos, herança da minha infância.
- Venha aqui, berrando falava e emendava – Hoje você vai trabalhar sozinho. Ele é apenas um menino. Cala a boca! ele vai aprender desde cedo a ser homem. A interpelação franciscana da minha mãe rasga as minhas lembranças e debruça sobre os movimentos a minha vida.

- Filho, feche os olhos sempre diante de um infortúnio – eu poderia espremer os meus olhos, mas não podia me limitar a não escutar as injúrias e tilintares que vinham do quarto. A primeira impressão que eu tenho gravada em mim é desta época da infância, poderia não saber direito o que era a vida, mas desconfiava que o filho da puta do meu pai surrava a minha mãe. Minutos depois mamãe aparecia com uma vermelhidão no rosto, me olhava com o canto dos olhos e interpelava ao meu favor como quisesse dizer – o mundo não é tão bom quanto os seus olhos de menino queriam ver.

Hoje recluso a estar com as pernas esparramadas neste café, o tempo não passa sem deixar vestígios de acontecimentos que já foram um dia, eu não consigo deixar de lado a aspereza que carrego em meus dedos e na minha cabeça.

- Fumo enquanto caminho, vejo umas pernas bonitas, mas não posso ser aquilo que eu nunca deixei de ser.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

O Argumento




O beijo de agora não tem mais sentido!


- É?


- Sim!

Tinha muito mais sentido, peso e verdade quando era encenado junto a novela, que abraçados assistíamos।


- Deve ser por isso que depois da novela, nós não mais existimos.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

interferências

O som dos carros lá embaixo está audível demais. Não consigo percorrer com a caneta uma caligrafia que seja diferente de estar tênue. Cansei de tentar começar a escrever neste papel ralo de tanto ser esborrachado. Minhas pernas estão dormentes. Mal sinto os pés, apenas os dedinhos mingos parecem resistir. Isto muito me preocupa. Escutei dias destes no noticiário, ou foi conversa paralela de elevador. Câimbras constantes é decorrente da falta de potássio. Assim, sabe, eu não sei mais o que fazer, toda manhã, os carros ensurdecem meus ouvidos. Aquelas anotações que sempre costumadamente viram poemas estão cada dia mais esquecidos nestas contrações esquisitas. Hoje já é o quarto cigarro que fumo. Gostaria muito de parar, mas a confusão da agitação da avenida não deixa. Daqui a pouco começa os altos falantes a denunciar que estamos em campanha eleitoral. Inferno, e inferno, e inferno. Aí não tem jeito, cigarro atrás de cigarro. Caminho lento pelo apartamento. Olho uma cidade movimentada. A vizinha aspira o apartamento e escuta a tv com um volume altíssimo e um programa horrível. Depois da ultima noite, ela é uma heroína de conseguir estar em plena atividade. Ruídos de passarinhos. Não, melhor, gorgeios de um canário preso em alguma gaiola pendurada em algum apartamento fechado. Barulho de correspondência passando por debaixo da porta. A campainha não tem utilidade nem para recebimento de correspondências mais. Aperto os passos. Receber cartas sempre é bom. Quantos vezes estou assim como hoje, um verdadeiro entulho de sentimentos, jogada pelo cantos e sustentada pelo cigarro. E quando recebo uma carta de um amigo, há tantos perdidos pelo mundo. Descubro que umas palavras, com alguns conectivos bastam para eu voltar a andar diferente. Não que seja uma sofreguidão itinerante. Mas sempre que estou mal gosto de receber cartas de amigos. Desde os tempos de militância estudantil nos idos finais de 60 e começo de 70. Eram tempos de sinceridade e imaturidade. Nem sabíamos direito o que éramos, mas tínhamos toda a certeza do que não éramos. O visco da modernidade era reprimido. Tempos de sair para caminhar e ter a única certeza que tudo aquilo que tínhamos em casa poderia em circunstâncias casuais serem reduzidos apenas a lembranças. Quanto tempo, seria normal sentir saudades do passado, ainda mais quando nele encontramos as mais belas recordações da vida. Não acredito! Meu Deus! Você está vivo cara. Marcelo não posso acreditar que uma carta poderia trazer um conteúdo tão expressivo para mim, para nós. O balsamo das noticias me jogam no chão. Vou ligar para meus amigos e contar sobre a carta. Merda! Amigos, que amigos? Não posso estar louca. Maldito aspirador. Maldito barulho ensurdecedor televisivo. Maldita campanha política. Este é o ultimo cigarro. E não tenho paciência e nem quero enfrentar o caos lá embaixo. As pessoas depois de um tempo para cá se fazem desentendidas do mundo. Não que eu não queira ser assim. No momento apenas quero fumar meu ultimo cigarrinho em paz. Tranqüila. E depois que acabar. Não vou comprar. O porteiro não vai interfonar e oferecer uma ida até a banca de revistas e trará uma carteira de cigarro com filtro branco. Alias, vai também comprar dois jornais, assim poderei acompanhar as noticias e perceber o quanto está defasada está nossa sociedade cada dia mais isolada. Nada disso vai acontecer. Lógico que não. Às vezes insisto em acreditar que vou conseguir mudar algo. Ultimamente nem meus versos consigo finalizar. Quando sento e cruzo as pernas para escrever, câimbras insistem em interromper. A batata da perna formiga. Os dedos do pé ficam todos duros e modificados. Apenas os mingos ficam intactos, parecem ficar. É assim. Parece que sempre será assim. Tudo culpa desta cidade. Cada dia mais caótica. Nesta época então, vivemos procissão eleitoral. Santinhos em todos os cantos. Do alto dos postes ao entupimento dos bueiros na chuvarada primaveril. Cinzeiro cheio. Sinal que meu último cigarro acabou. Sobram apenas bitucas e cinzas e pouco mais de mim. Droga. Bem, barulho por barulho. Meus ouvidos desfilam entre o som não equalizado do aspirador do apartamento ao lado. Um barulho que vem da rua e invade as vidraças. E agora um zumbido que percorre muito mais que lembranças amarelas. Calças jeans desbotadas. Este barulho-zumbido é o mais pesado de todos. Enquanto do aspirador, apenas escuto o expurgo do chato barulho. Da rua eu vejo a razão do barulho de tudo. Neste barulho se censura o grito de muitos. É assim. Parece que sempre será assim. Aqui dentro apenas o barulho do coração que acelerado bate desesperado. Não silenciado. Já mordi a língua mais de três vezes. Culpa da faceta irredutível de uma fumante sozinha. Sem cigarro. Sem quem compre. Sem jornal na porta. Certo que no momento câimbra não sinto. Mas, vou esquecer a caneta. A folha em branco rala de tanta borracha, descansa exausta. Os dedos da mão estão batendo freneticamente contra a mesinha de centro da sala. Dedos estes que um dia já seguraram anéis, alianças. Ultimamente nem a caneta consigo mais. E cigarro não tenho mais. A rouquidão do vizinho chama a esposa para ir ver a janela pela cama. Bem, se consigo escutar apenas os carros desesperados lá embaixo e uma voz masculina rouca chamando a mulher no apartamento ao lado, sinal que, felizmente o aspirador foi desligado. Uma bossa nova no som para comemorar. Saudades. Sensibilidade. Sentimentos. Som mais alto. Quero que reclamem. Vamos gritem mais alto que puderem. Acordem os anjos mais novos em suas nuvens baixas. Vamos. Aumento o som. Atiço o coração. Cabelo desgrenha e bate no rosto. Não peço perdão. Apenas aperto mais o balanço do corpo. Suo incondicionalmente. Afrouxo a alça do soutien. Canto mais alto que o som cadenciado do alto-falante. A campainha não toca. O porteiro não traz o cigarro. Não traz o jornal. Muitos menos interfona para dizer que um vizinho qualquer reclamou. Onde estou. Quem sou. Como vou. Tudo importa, menos a algazarra que eu poderia ocasionar agora. Tudo passa. A bossa-nova não passa. Escutem seus miseráveis, eu sei cantar mais alto que a voz possa alcançar. Arremesso o corpo com mais da metade de mim para fora da janela. Caso não incomode, eu grito. Escutem, eu grito. Miseráveis. Miseráveis. Miseráveis. Droga. Bato a janela. Não quebro o vidro. Não me corto. Desligo o som. A bossa-nova continua linda. Volto para os escritos. Invento um abrigo. Seguro a caneta, o dedo vermelho de batucar na mesinha está ardido. Escrevo um verso. Dois. Três. Pouco a pouco volto a redescobrir o mundo que está em meus escritos. O barulho externo não cessa. Não perturba mais. O que faz é apenas mostrar que a cidade continua viva. A monotonia do movimento da escrita é o que mais irrita. Tivesse eu apenas uma chance de fazer as palavras soarem mais. Martelarem mais. Com um tubo plástico redondo maior, um tubo carregado com cor menor, seria difícil eu conseguir fazer barulhos. Não quero barulhos que incomodem. Como fiz e fizeram comigo ainda hoje e tantas vezes. Quero escrever, e consternar quem escuta. Fazer da escrita um cachorro uivante que ecoa verticalmente e horizontalmente aos ouvidos de quem escuta. Salta os olhos de quem vê. A vizinha mesmo quando estiver em momento de mais profunda introspecção domiciliar com seu esposo vai perceber, melhor, irão perceber o leve toque dos dedos para percorrer as linhas e escrever palavras. Nunca vai precisar esquecer que ao lado de um apartamento habitado, reside mais que retratos. Os retratos sobre o mezanino da sala estão cheios de pó. Culpa minha, não. Culpa sua, também não. Culpa das letras inversas em propagandas de cigarros. Todos felizes. Nada afeta. Quem chega, não foi quem saiu. Quem saiu, não chega. Somente fica o peso da palavra. A fonte da lembrança. O ser o sentimento. A idéia que não mente. As palavras que não são doentes. E eu sou apenas quem faz um pouco de tudo. Militante estudantil. Amiga distante. Escritora censurada. Vizinha enclausurada. Sonhadora inveterada. Um cigarro por favor. Ele vai chegar e trazer. Escrevo mais um pouco. Volto a pensar.
E apago. E leio. E releio. E vejo.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

O sol de Nara





Quando chegou, mal teve tempo de perceber o recado preso em um imã na geladeira. Apressadamente passou pela cozinha, não gostava de entrar por ali, somente a fazia quando estava sem a chave da porta da sala. Já na sala reparou no desbote das folhas da avenca, mas não fez nada naquele momento, preferiu ir até o quarto e descansar o corpo maltratado do cansaço. Desprendeu o braço pálido do corpo, esticou a mão direita para pegar o travesseiro e atirou a bolsa para aquele espaço. Jogou-se na cama, na necessidade de descansar seu rígido corpo. Ali no quarto ela sentia a luz que entrava entre as persianas e atingia a sua branca e bonita perna direita. Sem necessidade de pedir licença para quem não iria chegar, resolveu puxar a saia mais para cima e deixar as pernas em locais pouco navegadas de sol.
Ali deitada e reclusa da movimentação e modernidade da vida lá fora, pensou mais friamente nas condições que extrapolam a situações do coração.
Na noite passada, durante a festa de aniversário de Verônica, percebi que eles conversavam e se entreolhavam. Isso me deixou profundamente chateada. Enquanto eu pedia mais uma dose de bebida ao garçom, somente para criar um certo desconforto a ele, não demorou mais que dez segundos para ele interromper a conversa e vir até a minha direção. Chegou sem muito pensar e disse:

- Ela é uma chata!

Eu me coloquei a rir demasiadamente da situação, vê-lo ali na minha frente e escutar aquela frase não tinha significado mais significativo para o momento.

- Não se preocupe. Eu sempre a achei chata, mas agora que escuto de você, ela é mais chata ainda.

Sentido com a situação e na esperança de reconquistá-la, se pôs a falar da esperança de fazer renascer os dias em que foram felizes.

- Sabes bem que eu não passei uma fase boa. Mas quero que saibas que agora estou bem. A quero muito próximo de mim.

Eu engasguei. Não acreditava que aquele homem que por vezes eu fiz sofrer, estivesse ali, com um ar de consternado pedindo para ficar próxima de mim. Olhei para meus cotovelos trêmulos, soltei os cabelos e os puxei bem para amarrá-los novamente. Fiz isso para conseguir contornar a coragem e falar:

- É. Então vamos para meu apartamento.

Não dei tempo de resposta a ele e lhe disse:

- Agora!

Anos mais tarde eu descobri que aquela noite não foi a nossa volta, nem tão pouca a nossa retomada definitiva. A pressa de encontrar nele alguém que iria me fazer bem, esbarrava na falta de sensibilidade dos meus sentimentos. Talvez fosse tudo culpa da urgência que eu tenho em vivenciar a natureza das coisas. Jamais me submeti a ficar nas noites de sábado sentada no sofá assistindo um filme qualquer e entre uma cena mais parada e outra confinar diálogos assim:

- Não conta que nunca assistiu filmes deste diretor?

- Diz que está de brincadeira comigo?

- Barbaridade, o que fizeram com você na sua vida?

Essas perguntas cretinas afugentavam a minha pressa, não poderia ficar reclusa a perguntas estúpidas como estas em uma noite de sábado. Eu preferia ficar atenuada com as cenas e aproveitar o momento para recriar um romance fílmico ali no sofá da sala.
Porém a minha caretice e falta de coragem não permitiam eu agarrá-lo pela gola da camisa e começar a subtrair as vontades. Ficava na minha eterna culpa de aceitar tudo que acontecia.
Em uma noite de agosto ele chegou todo molhado, a sua camisa pólo azul estava grudada no corpo, as costas faziam uma espécie de “v”, salientes pareciam asas de um anjo querubim.

- Essa chuva chegou depressa, eu jamais iria imaginar que um guarda-chuva me salvaria neste começo de noite. Enfim, consegui comprar uns chocolates e um vinho, não é dos bons, mas vai servir para evitar o resfriado. Colocou-se a sorrir. Era um sorriso com chiados de verdade.

- Seu bobo, vinho serve para esquentar, para gripe é caipira que é bom. Pelo menos foi o que restou da tradição familiar, meu avô sempre defendia esta tese.

Colocaram-se a sorrir. Eram sorrisos sinfônicos em par. Em par eles fizeram de tudo naquele sábado chuvoso de agosto. As mãos que em algumas noites eram duas, transformaram-se em quatro, as bocas que eram apenas uma para saciar o chocolate, somaram-se para trair o desejo e atrair o momento. Os corpos envoltos, não pareciam nada, pareciam corpos envoltos de desejos.
O som da velha vitrolinha, herança da família dela tocava um vinil da Nara Leão – aquela voz doce da Narinha expressava de modo genial a composição do velho Chico.

Quando a noite enfim lhe cansa, você feito criança, pra chorar o meu perdão, qual o quê! Ele retrucou.

- Não gosto deste verso, não que não goste, neste momento aqui não posso gostar. Prefiro o começo e começou a cantarolar em meu ouvido – com açúcar e com afeto, fiz seu doce predileto, pra você parar em casa. Antes de terminar o verso, mordeu meu lábio inferior e me beijou com intensidade. Senti a textura do beijo.

Depois de tantas vezes juntos não lembrava da ultima vez que tínhamos passado uma noite tão agradável juntos. Não tive oportunidade de lhe dizer boa noite, nem outras frases mais, sentia que naquela madrugada eu poderia esquecer a minha falta de coragem em pronunciar algo. Porém ele já dormia, respirava forte e nem a chuva que fortemente atingia o vidro da janela do quarto impedia aquele som. O abracei forte, feche os olhos e não lembro de ter sonhado.

- Amor, cadê você?

- Você está no banheiro?

Era 7:18 de domingo, o despertador já tinha anunciado o acordar. Envolto ao edredom com aroma da noite, estiquei o braço, afastei as taças de vinho e puxei a minha carteira de cigarros.

- Ufa, tenho mais um.

Suspirei aliviada, retirei o travesseiro dele do lugar, juntei ao meu e me encostei. Enquanto eu tragava tranquilamente aquele solitário cigarro, sentia em meu copo o peso, a necessidade boa que aquela noite tinha me provocado. Doía-me esta história de ficar tonta com os meus sentimentos mais usuais.

Antes de terminar o cigarrinho ele reapareceu com um sorriso nos lábios e com a o rosto suado disse:

- Gosto da Nara Leão, mas confesso que ouço mais a Fernanda Takai. A voz delas é muito parecida. Não acha?

Meu silêncio se fez vitrine. E ele emendou:

- Não acredito que você ainda não percebeu?

- Eu vou trabalhar!

Mas hoje é domingo, não é?

- É sim! Mas certas vezes eu trabalho no domingo.

Beijou-me e saiu para trabalhar.

Fiquei ali ilhada nas fragrâncias daquele quarto. Retirei o segundo travesseiro e voltei a deitar meu corpo. Em poucos minutos dormi.

Hoje eu sei que desde o inicio eu tinha certeza que aquele amor era um vício de ambos, não estávamos ali para preencher a vida um do outro, mas para nos limitarmos ao momento. Ele com suas perguntas sem respostas, eu com a urgência momentânea. Na verdade eu não sei muito bem a razão de voltar à tona destes acontecimentos.
Preso no imã fixo da geladeira, escrito em papel de uma agenda velha, ficou escrito por ele: se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí.
Tudo culpa da Nara Leão, tudo culpa minha. Penso em começar a colocar a pálida e não tão bonita perna esquerda no sol.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

OS

Tocavam a campainha do apartamento ao lado, sempre no começo de tarde. O azul da tarde invadia a sala e calmamente junto ao silêncio sentenciavam o peso vespertino. Abraçada a sua solidão pegava recortes de coleção de revistas de moda de invernos passados. Todas as modelos muito bem vestidas, bonitas como fossem incólumes ao tempo. Urgentemente se perguntou em que estação estava, a preocupação lhe doeu os ossos, por um momento ficou com remorso de estar restrita ao verão. As folhas secas desta estação eram sobras da primavera que adoeceu no mesmo sentido do seu coração. Sentia falta de todos os momentos que restavam da sua ultima saudade adormecida. Em sonhos não despertados pelo inescrupuloso despertador ela tinha duvidas em falar sobre certas coisas. Entre todas suas opressões mais expostas estava o receio de falar a respeito do amor. Acreditava que todos os modelos de amor, quando posicionados em escalas evolutivas de contagem, perdem o sentido para as banalidades de outros ângulos míopes da vida. Ficou com medo de voltar a falar de amor, pelo menos nesta tarde. Sentia remorso de ficar sempre com lembranças que a aturdiam e depois permaneciam em sua cabeça como fossem partes de sua família. O cachorro do apartamento ao lado estava sozinho, aliás, sempre ficara sozinho durante as tardes, seus donos saiam para cuidar das suas vidas profissionais - ele não parava de latir quando escutava a campainha tocar. A campainha tocar é um sonido propagado por alguém que chegou. Muitas vezes me sinto como um cachorro trancado dentro de um apartamento, não que eu tenha vergonha de latir, mas eu divago, penso em prosa e viajo na poesia do sentimento. Quem saiu, não voltou mais, deixou apenas um maço de cigarros e um cartão amassado do natal de 88 – Seja como for, seja sempre amor, seja sempre você, amor, amor meu – estava impresso em letra cursiva. Ler isso é agredir minha alma, porém como sou duas, agrido a alma e purifico o corpo. Volto a relembrar quando eu lhe perguntei certa vez umas duvidas sobre o que sentira na época – Você me ama o suficiente para sentir que ama de verdade para sempre? O sinto na minha frente dizendo com os lábios quase encostando um no outro – Certamente a amo, mais que possas imaginar e menos que possas sentir – falado isto, punha-se a sorrir, um sorriso que seduzia mais que qualquer outra coisa no mundo. Nestas horas eu me punha de pé, jogava as costas para trás, admirava meus seios e dizia olhando para ele – Viver apenas uma vez com você não basta – os sorrisos dos dois abriam dois mundos de amores conjugados de sinceridade.
Tais palavras rasgavam a sua doce garganta e feriam fonemas que alucinados estavam por não poderem dizer um nome. Terrivelmente os sentimentos não dormem dentro de mim, me acordam toda madrugada por volta das 3 horas da manhã. Mesmo acordada sinto a recordação de mãos dadas com os sentimentos lá próximas daqueles retratos empoeirados e bonitos. O que mais me incomoda todos os dias ao acordar em casa, é que neste apartamento sou obrigada a domesticar todos meus anseios e conviver com meus desejos. Quando estou no trabalho, volta e meia sempre estou com a cabeça naqueles dizeres do cartão, principalmente em sua parte final – seja sempre você, amor, amor meu. Estranho que mesmo quando estou com alguém diferente, não que seja implicância ou comparação minha, mas não o tiro da cabeça, os versos crescem e já formam um mosaico de frases e sentimentos tão bem guardados aqui dentro de mim. Entusiasmada com o momento vespertino e azul da tarde exclamou – vivemos para o agora e para as lembranças – sorriu, como fizesse questão de pedir desculpas por nascer e morrer nos sentimentos. Resolveu fumar e a cada trago voltava a pensar mais em tudo o que mais lhe assolava e consolava. A campainha do apartamento ao lado continuava sempre a tocar durante as tardes.


segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Senhor, seu troco.



A praça Zacarias sempre foi o lugar do centro da cidade que mais gostei de ficar. Ali é legal, têm o chafariz, a Lancaster, a Marechal e um prédio com 25 andares o edifício Acácia. Os dias de calor eram divertidos, usava o chafariz para mergulhar, brincar com a água expelida pelos arcanjos. A noite dividia a marquise das Pernambucanas com mais alguns amigos, todos nós usávamos papelões oferecidos por um dos guardiões da loja. Sujeito impar, além de não nos maltratar, arrumava o material de nosso dormitório e nos protegia. Pela manhã gostava de subir até a praça Carlos Gomes e perambular por todos os bares do entorno, pedindo dinheiro as pessoas. Sair a caça de moedas pela manhã sempre é mais fácil, as pessoas com pressa de chegar ao trabalho, mal tem tempo de questionar para qual finalidade é o dinheiro. Simplesmente enfiam a mão no bolso e despejam em minha mão. Já tive sorte de pegar cinco reais, uma nota bem amassada é verdade, provavelmente doada sem querer. Situações como esta são raras, normalmente precisamos beijar as pontas dos balcões das lanchonetes e encarar o corpo dos homens para pedir uma moedinha. – Tio me arruma um trocadinho? Tio me arruma um trocadinho? Quantos vezes a pergunta repetiu-se e nenhuma reação foi diagnosticada. Quando não arruma-se moedas, se conversa com outros amigos e nos viramos na tentativa de inventar a vida. Depois desmaiamos encostados na moldura que circunda o chafariz da praça, ali ficamos expostos a deriva do tempo. Perdidos em nossos pensamentos descobrimos o quanto a inocência não tem sentido quando ela é preparada em plásticos coloridos. Não temos muito tempo para continuar a deriva do tempo, precisamos voltar a pedir, mas pedir é tão indelicado, as pessoas tem medo de nos olhar, agredimos com nosso semblante pérfido de valores, por mais que saibamos diferenciar as coisas. Em uma manhã de junho a chuva caia forte, batia nos ladrilhos da calçada e rebatiam sobre nós e nosso papelões. Era perto das sete horas da manhã, olhei para Castorzinho e pensei, a gente poderia levantar daqui e ir até a panificadora do Português que ficava distante quatro quadras da marquise da Pernambucanas. Resolvi não falar nada, afinal, entre convidar mais um e ter que dividir um pão, preferi ir sozinho. Chegando a panificadora ela encontrava-se com algumas pessoas dentro, fiquei encostado na porta na logo na entrada e ali fazia o cartão de visita:

- Senhor, você me arruma um trocado?
Fazer a pergunta na entrada é sempre mais fácil, afinal já sabia se receberia alguma moeda ou não. Muitos que passaram por ali deixaram um trocado do troco. Consegui somar moedas e tinha dinheiro suficiente para tomar um café preto bem quente e comer um pão com manteiga na chapa. Neste tempo em que estive na porta da panificadora do Português, Castorzinho que logo após a minha saída também levantou-se e perambulou pela praça atrás de algo que pudesse sustentar o vazio que a vida naquele instante estava. Foi pelo caminho mais fácil, em uma distração do dono da banca de revistas pegou 70 reais e fugiu em direção a panificadora. Quando chegou estava atônito e quase sem conseguir falar, me disse:

- Toma! E saiu em disparada.

A sua camiseta branca com a impressão de uma escola municipal estava com as costas toda marcada de água suja, resultado da velocidade dos seus calcanhares sobre as pedras da calçada molhada. Não tive tempo de ver o que era, muito menos de saber quanto de dinheiro tinha ali. Antes mesmo de eu me sentar em uma das cadeiras de pernas compridas e com assentos revestidos de espuma coberta com courino bordo, chegou o seu Rogério e dois policiais.

- É esse ai?
- Esse aqui mesmo?
- É.

Venha vagabundo.

Depois desta manhã tudo mudou. Não preciso mais sair cedo e pedir moedas na saída da Lancaster, confeitaria dos bacanas, ou ainda, ir até a Panificadora do Português. Tenho café da manhã, almoço, lanche da tarde e jantar. Porém troquei a praça, o chafariz e seus arcanjos por um quadrado cercado de 2x2 em que divido com outros 8 meninos. Aqui somos tratados como fosse a tradução de como as pessoas pensam em nos chamar na rua, porém, grande parte delas não chama. Aqui tudo tem horário, mas muitas vezes somos acordados no meio da noite por um funcionário, que diz com voz embriagada: - Qual de vocês vai ter o privilégio de sair da companhia dos outros? A gente nunca sabe quem é, mas afirmo, que neste caso ser, não é nada bom.
Quando o funcionário não me escolhe para sair por algumas horas daquele espaço cinza 2x2 eu consigo fechar os olhos e reconstruo a Praça Zacarias, o seu entorno e até a banca de revistas do seu Rogério, local em que muitas vezes eu ainda com os cabelos desgrenhados e olhos nublados do sol matutino tentava ler as primeiras páginas dos jornais pendurados e fixos por grampos de roupa, estes iguais aos que as donas de casa usam no dia-a-dia. Aquilo que eu não conseguia entender perguntava aos transeuntes, mas grande parte das vezes continuava a não entender.
O momento que mais lembro da praça, dos trocos dos senhores no centro da cidade é quando os meus olhos fechados não conseguem suportar as lágrimas que o transpõem. Isto sempre acontece quando escuto música clássica, cigarro e ofegância. Muitas vezes perco a conta de quantos cigarros tem no cinzeiro e quantas vezes a mesma música clássica ecoou. Tudo culpa destes plantões longos, intermináveis, eternidades de uma tarde.
Certo dia ao ser novamente o escolhido para acompanhar o funcionário antes de começarmos mais uma atividade percebi que a sala de paredes brancas e uma mesinha de madeira com duas cadeiras pretas também tinha uma mesa improvisada no canto esquerdo, ali percebi que tinham uma garrafa térmica e um pacote igual aos da padaria do Portuga.

- Você não me arrumava uma xícara de café preto e um pão com manteiga.
- O que? Vai se foder, porra!

Mal tive tempo de retrucar algo, já sentia aquela esbaforida de cigarro romper a minha orelha direita e escutava uma voz que dizia:

- Você quer café? Está de brincadeira comigo.

Depositado naquela situação sempre falava:

– Senhor, seu troco.