quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

interferências

O som dos carros lá embaixo está audível demais. Não consigo percorrer com a caneta uma caligrafia que seja diferente de estar tênue. Cansei de tentar começar a escrever neste papel ralo de tanto ser esborrachado. Minhas pernas estão dormentes. Mal sinto os pés, apenas os dedinhos mingos parecem resistir. Isto muito me preocupa. Escutei dias destes no noticiário, ou foi conversa paralela de elevador. Câimbras constantes é decorrente da falta de potássio. Assim, sabe, eu não sei mais o que fazer, toda manhã, os carros ensurdecem meus ouvidos. Aquelas anotações que sempre costumadamente viram poemas estão cada dia mais esquecidos nestas contrações esquisitas. Hoje já é o quarto cigarro que fumo. Gostaria muito de parar, mas a confusão da agitação da avenida não deixa. Daqui a pouco começa os altos falantes a denunciar que estamos em campanha eleitoral. Inferno, e inferno, e inferno. Aí não tem jeito, cigarro atrás de cigarro. Caminho lento pelo apartamento. Olho uma cidade movimentada. A vizinha aspira o apartamento e escuta a tv com um volume altíssimo e um programa horrível. Depois da ultima noite, ela é uma heroína de conseguir estar em plena atividade. Ruídos de passarinhos. Não, melhor, gorgeios de um canário preso em alguma gaiola pendurada em algum apartamento fechado. Barulho de correspondência passando por debaixo da porta. A campainha não tem utilidade nem para recebimento de correspondências mais. Aperto os passos. Receber cartas sempre é bom. Quantos vezes estou assim como hoje, um verdadeiro entulho de sentimentos, jogada pelo cantos e sustentada pelo cigarro. E quando recebo uma carta de um amigo, há tantos perdidos pelo mundo. Descubro que umas palavras, com alguns conectivos bastam para eu voltar a andar diferente. Não que seja uma sofreguidão itinerante. Mas sempre que estou mal gosto de receber cartas de amigos. Desde os tempos de militância estudantil nos idos finais de 60 e começo de 70. Eram tempos de sinceridade e imaturidade. Nem sabíamos direito o que éramos, mas tínhamos toda a certeza do que não éramos. O visco da modernidade era reprimido. Tempos de sair para caminhar e ter a única certeza que tudo aquilo que tínhamos em casa poderia em circunstâncias casuais serem reduzidos apenas a lembranças. Quanto tempo, seria normal sentir saudades do passado, ainda mais quando nele encontramos as mais belas recordações da vida. Não acredito! Meu Deus! Você está vivo cara. Marcelo não posso acreditar que uma carta poderia trazer um conteúdo tão expressivo para mim, para nós. O balsamo das noticias me jogam no chão. Vou ligar para meus amigos e contar sobre a carta. Merda! Amigos, que amigos? Não posso estar louca. Maldito aspirador. Maldito barulho ensurdecedor televisivo. Maldita campanha política. Este é o ultimo cigarro. E não tenho paciência e nem quero enfrentar o caos lá embaixo. As pessoas depois de um tempo para cá se fazem desentendidas do mundo. Não que eu não queira ser assim. No momento apenas quero fumar meu ultimo cigarrinho em paz. Tranqüila. E depois que acabar. Não vou comprar. O porteiro não vai interfonar e oferecer uma ida até a banca de revistas e trará uma carteira de cigarro com filtro branco. Alias, vai também comprar dois jornais, assim poderei acompanhar as noticias e perceber o quanto está defasada está nossa sociedade cada dia mais isolada. Nada disso vai acontecer. Lógico que não. Às vezes insisto em acreditar que vou conseguir mudar algo. Ultimamente nem meus versos consigo finalizar. Quando sento e cruzo as pernas para escrever, câimbras insistem em interromper. A batata da perna formiga. Os dedos do pé ficam todos duros e modificados. Apenas os mingos ficam intactos, parecem ficar. É assim. Parece que sempre será assim. Tudo culpa desta cidade. Cada dia mais caótica. Nesta época então, vivemos procissão eleitoral. Santinhos em todos os cantos. Do alto dos postes ao entupimento dos bueiros na chuvarada primaveril. Cinzeiro cheio. Sinal que meu último cigarro acabou. Sobram apenas bitucas e cinzas e pouco mais de mim. Droga. Bem, barulho por barulho. Meus ouvidos desfilam entre o som não equalizado do aspirador do apartamento ao lado. Um barulho que vem da rua e invade as vidraças. E agora um zumbido que percorre muito mais que lembranças amarelas. Calças jeans desbotadas. Este barulho-zumbido é o mais pesado de todos. Enquanto do aspirador, apenas escuto o expurgo do chato barulho. Da rua eu vejo a razão do barulho de tudo. Neste barulho se censura o grito de muitos. É assim. Parece que sempre será assim. Aqui dentro apenas o barulho do coração que acelerado bate desesperado. Não silenciado. Já mordi a língua mais de três vezes. Culpa da faceta irredutível de uma fumante sozinha. Sem cigarro. Sem quem compre. Sem jornal na porta. Certo que no momento câimbra não sinto. Mas, vou esquecer a caneta. A folha em branco rala de tanta borracha, descansa exausta. Os dedos da mão estão batendo freneticamente contra a mesinha de centro da sala. Dedos estes que um dia já seguraram anéis, alianças. Ultimamente nem a caneta consigo mais. E cigarro não tenho mais. A rouquidão do vizinho chama a esposa para ir ver a janela pela cama. Bem, se consigo escutar apenas os carros desesperados lá embaixo e uma voz masculina rouca chamando a mulher no apartamento ao lado, sinal que, felizmente o aspirador foi desligado. Uma bossa nova no som para comemorar. Saudades. Sensibilidade. Sentimentos. Som mais alto. Quero que reclamem. Vamos gritem mais alto que puderem. Acordem os anjos mais novos em suas nuvens baixas. Vamos. Aumento o som. Atiço o coração. Cabelo desgrenha e bate no rosto. Não peço perdão. Apenas aperto mais o balanço do corpo. Suo incondicionalmente. Afrouxo a alça do soutien. Canto mais alto que o som cadenciado do alto-falante. A campainha não toca. O porteiro não traz o cigarro. Não traz o jornal. Muitos menos interfona para dizer que um vizinho qualquer reclamou. Onde estou. Quem sou. Como vou. Tudo importa, menos a algazarra que eu poderia ocasionar agora. Tudo passa. A bossa-nova não passa. Escutem seus miseráveis, eu sei cantar mais alto que a voz possa alcançar. Arremesso o corpo com mais da metade de mim para fora da janela. Caso não incomode, eu grito. Escutem, eu grito. Miseráveis. Miseráveis. Miseráveis. Droga. Bato a janela. Não quebro o vidro. Não me corto. Desligo o som. A bossa-nova continua linda. Volto para os escritos. Invento um abrigo. Seguro a caneta, o dedo vermelho de batucar na mesinha está ardido. Escrevo um verso. Dois. Três. Pouco a pouco volto a redescobrir o mundo que está em meus escritos. O barulho externo não cessa. Não perturba mais. O que faz é apenas mostrar que a cidade continua viva. A monotonia do movimento da escrita é o que mais irrita. Tivesse eu apenas uma chance de fazer as palavras soarem mais. Martelarem mais. Com um tubo plástico redondo maior, um tubo carregado com cor menor, seria difícil eu conseguir fazer barulhos. Não quero barulhos que incomodem. Como fiz e fizeram comigo ainda hoje e tantas vezes. Quero escrever, e consternar quem escuta. Fazer da escrita um cachorro uivante que ecoa verticalmente e horizontalmente aos ouvidos de quem escuta. Salta os olhos de quem vê. A vizinha mesmo quando estiver em momento de mais profunda introspecção domiciliar com seu esposo vai perceber, melhor, irão perceber o leve toque dos dedos para percorrer as linhas e escrever palavras. Nunca vai precisar esquecer que ao lado de um apartamento habitado, reside mais que retratos. Os retratos sobre o mezanino da sala estão cheios de pó. Culpa minha, não. Culpa sua, também não. Culpa das letras inversas em propagandas de cigarros. Todos felizes. Nada afeta. Quem chega, não foi quem saiu. Quem saiu, não chega. Somente fica o peso da palavra. A fonte da lembrança. O ser o sentimento. A idéia que não mente. As palavras que não são doentes. E eu sou apenas quem faz um pouco de tudo. Militante estudantil. Amiga distante. Escritora censurada. Vizinha enclausurada. Sonhadora inveterada. Um cigarro por favor. Ele vai chegar e trazer. Escrevo mais um pouco. Volto a pensar.
E apago. E leio. E releio. E vejo.

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